Empreender é opção para quem não tem ou não quer emprego

05/02/2019
Com a demora de uma retomada mais acentuada da economia e, consequentemente, menor abertura de postos de trabalho com carteira assinada, o mercado informal no Brasil segue em crescimento. Segundo dados divulgados ontem na Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, 40,8% da população ocupada (37,3 milhões) eram informais em 2017. Neste mesmo ano, o presidente do Sebrae, Guilherme Afif, afirmava que o empreendedorismo passaria a ser o responsável pela geração de empregos. “Quer um emprego? Crie um”, chegou a dizer ele. E é justamente isso que muitos brasileiros têm feito, estejam formalizados ou não.

De acordo com pesquisa do Instituto Ipsos, realizada em 24 países, enquanto, na média, a pretensão de abrir o próprio negócio é de 25% em todo o mundo, entre os brasileiros, esse índice é de 43%. O resultado coloca o País entre os cinco mais interessados em empreender até 2020, atrás apenas do México, Índia, África do Sul e China. Somente no Grande Recife, conforme estimativa do Sebrae-PE, pelo menos 30 mil pessoas têm interesse em abrir o próprio negócio. Muitos em função do desemprego, já que 52% dos ocupados no Estado estão na informalidade.

É o caso de Shirllene Araújo, 29. Ela só teve um único emprego de carteira assinada na vida. Trabalhou um ano e quatro meses como auxiliar administrativo em um buffet. “Ainda procurei emprego por um ano. Depois fui vender bijuterias, mas resolvi mudar depois que vi os chineses entrando no ramo”. A trajetória de Shirllene passou por cursos profissionalizantes em edificações e até de operadora de empilhadeira. “A escola era ruim e eu não me identificava”, diz ela, até que resolveu investir no curso de design de sobrancelhas, no Senac. “Aprendi muito lá e me encontrei na profissão. Acho engraçado ver alguém falando que os ambulantes são uns coitados e que estão ali porque não têm emprego. Eu prefiro estar na rua. Ganho bem mais aqui e sou dona do meu tempo”, fala com orgulho, para admitir em seguida que deseja, um dia, ter um local próprio e se formalizar.


 

Para a analista de indicadores sociais do IBGE, Luanda Botelho, embora o PIB per capita das famílias já apresente uma “tênue recuperação”, a desocupação e subutilização do trabalho, que começaram a piorar em 2015, permaneceram no mesmo panorama em 2017. “Como há uma redução do nível de ocupação, é esperado que realmente haja uma passagem maior das pessoas para o mercado informal. Porém é um vínculo mais precário, com rendimentos menores”, esclarece.

EMPREGO

Esses resquícios da crise no mercado de trabalho despertam nas pessoas o “empreendedorismo por necessidade”. Se em 2014, pesquisa do Sebrae (GEM) indicava que esse tipo de empreendedorismo representava 29% dos negócios, em 2017 o índice chegou a 39%. “Para a gente é um cenário crítico. O melhor para empreender é quando há oportunidade identificada no mercado. Por isso, é fundamental a capacitação antes de investir em qualquer negócio próprio”, diz o gerente de educação do Sebrae, Thiago Suruagy.

Há dois anos, Alex Iglesias Pinho, 24, decidiu formalizar sua microempresa. Estudante de engenharia mecânica, ele tem uma oficina que atende a domicílio. “Fiz o curso técnico de mecânica automotiva do Senai porque me oferecia uma prática que eu não tenho na faculdade”, diz ele. O negócio está dando tão certo, que mesmo depois de formado, o que deve acontecer no próximo ano, ele não pensa em procurar emprego. “Vou focar na minha empresa, quero ampliar o atendimento e contratar funcionários”, afirma.

Reportagem publicada no Jornal do Commercio


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